terça-feira, 17 de outubro de 2017

De Margaret Atwood

"Trair é um trabalho árduo."
(De Transtorno moral, tradução de Carlos Ramires, Editora Rocco.)

Os nossos

Eles esperam por nós.

Tantas  vezes lhes falhamos
tantas os esquecemos
tantas os relegamos
e eles ainda esperam por nós.

Não estão aflitos agora.
Que aflição pode haver?
Que sentimento pode ter
pó que espera por pó?

De Inês Pedrosa

"A narrativa bíblica pode ser interpretada de outra forma: Deus enviou a maçã e a serpente para que as suas criaturas ganhassem o direito ao livre-arbítrio."
(Do romance Os íntimos, Alfaguara.)

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

O adjetivo (para Ana Farrah Baunilha)

Sou um substantivo ao qual só se ajusta bem um adjetivo: reles.

Efeito

É quando você se sente mais inútil, vazio, oco e imprestável que você se põe a adjetivar.

Na lista

Visceral e crucial são dois dos piores adjetivos que conheço. Representam uma tendência antiga e atualíssima: o mau gosto que se presume letrado.

Do romance "Os íntimos", de Inês Pedrosa

"- Tu és um analfabeto sentimental
disse-me uma vez uma mulher. Eu agarrei-me aos peitos dela enquanto a beijava. Como se me agarrasse a uma boia de salvação, só isso."
(Publicado pela Alfaguara.)

domingo, 15 de outubro de 2017

Um, os dois ou os três (para Marco Antonio Martire)

Falar de amor causa sempre constrangimento. Quando não é um dos interlocutores, é o outro, às vezes os dois. Mas na maior parte das vezes é o próprio amor.

Zombaria

Se o que de nós escrevi
Eu pudesse ainda apagar,
Parariam de zombar
Do amor, de mim e de ti?

Os dois tipos

Há os homens de ação e os outros, os de omissão. Não me perguntem a qual dos tipos pertenço.

Só isso

Digam o que disserem, e mesmo que não digam nada, o que os leitores esperam dos poetas é sempre beleza.

De Margaret Atwood

"As lesmas comiam tudo e não eram comidas por nada. Não ser atraente tem suas vantagens."

sábado, 14 de outubro de 2017

Sempre ali

Vocês me conhecem. Sou aquele sujeito que diz ter morrido de amor e no entanto continua a falar  dele e a acusá-lo. Vocês sabem como proceder comigo. Vocês me ouvem um pouco, depois fingem me ouvir mais um pouco e no fim me deixam falando sozinho. No dia seguinte, eu estou na mesma esquina, aquele morto acusando o amor. Apareci ali ninguém sabe quando nem como, e fui ficando. Somos poucos hoje, três ou quatro em toda a cidade. O amor talvez não seja um bom assunto.

Conselho médico

Se fores ficar doente
que seja uma doença decente
e tenha o nome que for
seja uma das que constem
dos manuais de medicina
e não aquela coisa mofina
aquela molestiazinha chamada amor.

Ninharias

O que nos mata são essas tolices a que damos tanta importância, como o amor. Ele já nos envergonhou tanto que, ao mencioná-lo, nós o chamamos agora pelo mais brando dos seus nomes: afeto.

Megafone

Sempre quis vender a ideia de que tenho algo essencial e bonito a dizer. Sempre fui mau vendedor.

Modos de ver

Talvez a vida nunca tenha sido boa. Você é que talvez tenha sido tolo todo esse tempo.

Troca (para Rose Marinho Prado)

Sei que não tenho alma. Se a tivesse, há muito ela estaria com o Diabo, em troca de uma obra, ainda que não fosse prima.

Aqueles tipos (para Inês Pedrosa)

Os escritores são aqueles tipos que morrem sem desfrutar a vida. Eles a desperdiçam toda numa única e maníaca atividade: trabalhar, trabalhar, trabalhar, para acrescentar uma linha, um adjetivo ao seu necrológio.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Algoz (para a Flá Perez)

Ou o amor nos mata ou nos mata a poesia.

Hoje no portal do Estadão

http://emais.estadao.com.br/blogs/escreviver/uma-nova-mulher/

(Os valiosos conselhos das revistas)

Fugacidade (para Tania Regina Fernandes Cordeiro)

Tínhamos tanto a dizer,
Mas deixamos o tempo ir
E o relato se perder.
Quem ainda, hoje, o quer ouvir?

A opção

Morre-se de tantas causas, de tanta ridicularia: de gripe, de acidente, de inveja, de melancolia. Morre-se de amor ou de falta dele, morre-se na hora certa, morre-se quando não se devia. Morre-se do desencontro, morre-se da procura. Por que zombar, por que escarnecer, por que desdenhar de quem quer definhar de poesia, de quem quer morrer de literatura?

Entre nós (para Silvana Guimarães)

Nós os chamamos em vão,
Inútil é nossa voz.
Os bárbaros não virão,
Há muito estão entre nós.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

O momento

Quando nada temos a dizer e todos os olhos nos olham como se fôssemos impostores, aí é que nos cabe mostrar o que aprendemos com a literatura.

Identidade

Exigir que os poetas românticos escrevessem teria sido uma impertinência. Com aquela presença, aquele porte, aquela aura...

Herança

Tenho pena de mim, do homem que me tornei depois de tantos sonhos malogrados. É um mau hábito que aprendi com minha mãe.

Hipótese

Se o amor fosse como você às vezes ainda o imagina, você o mereceria?

Mão única

Que você tenha se apaixonado pela poesia se entende. Mas foi presunção demais julgar que ela corresponderia.

Obviedade

O que mais você esperava? Que futuro poderia ter um menino viciado em rimas e versos?

Balanço

Hoje você pode dizer que a poesia foi mais um brinquedo de criança que um projeto de vida.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Aleluia

Eu não ter nada a escrever
É uma bênção do Senhor.
Devemos Lhe agradecer -
Eu e, mais que eu, meu leitor.

Cotação do dia

Estarmos mortos é já um hábito quase tão antigo quanto o de viver. Alguns nos chamam de indiferentes, outros de apáticos. A verdade é que desde o início não nos demos muito bem com essas coisas todas que tanto agradam aos demais.

Índex

Palavras também sofrem discriminação. Devaneio, por exemplo. E alvíssaras, e augúrios, e primícias. Melhor não pronunciar nenhuma delas.Todas carregam uma maldição. Preservemos nossos lábios e digamos amor uma vez, duas, três, enquanto nos permitem dizê-lo.

De Inês Pedrosa

"O erro é a melhor definição da humanidade; no mundo animal não existe o erro, apenas a morte."
(De Os íntimos, Alfaguara.)

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Porcentagem

Hoje quase ninguém mais estranha se dizemos que nossa ocupação é a literatura. Só um entre dez faz ainda aquele comentariozinho sarcástico: ah, sei.

Piada

Contaram uma piada tão boa que, pela primeira vez na noite, senti pena do defunto. Para lhe melhorarem a aparência, tinham lhe tirado o aparelho auditivo.

De Inês Pedrosa

"O sofrimento é como a liberdade: só aproveita aos corações de grande fortaleza. Aos outros, corrompe-os, mais nada."
(De Os íntimos, Alfaguara.)

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Cotação do dia

Sempre tive consciência de que eu valia pouco, mesmo no tempo em que cheguei a valer alguma coisa.

Prateleira

Sou aquele que você pode levar menos caro amanhã e muito mais barato depois de amanhã.

O que temos

Contra as misérias do corpo, temos por enquanto apenas a expectativa de alma e essa ternura aguda que nos espeta quando alguém diz a palavra amor.

Início de "Os íntimos", de Inês Pedrosa

"A minha vida ficou decidida no instante em que salvei uma mulher das ondas do mar. A ação heroica completa: agarrei num mergulho o corpo inerte, trouxe-o para a praia, fiz-lhe respiração boca a boca e assisti ao seu regresso à vida. Quando os primeiros socorros chegaram já estava tudo resolvido. E eu sabia duas coisas: em primeiro lugar, que queria ser médico. Em segundo, que os seios arfantes de uma mulher eram um excelente substituto do paraíso. Mais tarde perceberia que tudo cansa, a salvação ou o paraíso."
(Editora Alfaguara.)

domingo, 8 de outubro de 2017

Futuro

Robôs escreverão por nós e serão tão eficientes que com estes nossos mesmos ingredientes - o amor e os outros dois de praxe - apaixonarão multidões, terão a cabeça metálica coroada com chuvas de flores e com eles sonharão as mulheres sentimentais.

Cotação do dia

Então um dia, um domingo, você nota que está morto e que não é uma sensação nova.

Hoje na revista Rubem

Falo de defuntos e de outros itens não tão frios.
(www.rubem.wordpress.com)

Início do conto "Luíza vinha de noite", de Aldyr Garcia Schlee

"Luíza vinha de noite, na sombra do muro coberto de madressilva, e entrava pelo portão do lado. Vinha ofegante, muda, nervosa, tremendo, tremendo... vinha geladinha aquela mulher: geladinha geladinha, como se estivesse nua em pelo, despida, já sem nenhuma das roupas que se iam afrouxando e lhe caindo do corpo pelo chão, mal ela entrava em minha casa."
(De Os 20 melhores contos de Aldyr Garcia Schlee, Editora Ardotempo.)

sábado, 7 de outubro de 2017

A aflição do conde

Depois das refeições, o conde Olof levantava-se, ia até onde a condessa estava sentada, beijava-lhe o rosto e saía da sala para fumar. Era tudo sempre igual. Uma noite, ele tinha dado alguns passos, depois do beijo, quando a condessa o chamou. "O que você quer?", ele perguntou, contrariado. Ela insistiu: "Vem aqui." Ele se reaproximou. Ainda sentada, ela puxou seu rosto e cochichou alguma coisa. O conde olhou para mim. Parecia aflito. A condessa cochichou de novo. Ele, então, como se cumprisse uma sentença, a beijou no ombro. Ela deu um suspiro longo. Quando o conde finalmente saiu, imaginei que ela fosse olhar para mim. Não olhou. Eu me retirei, sem esperar que ela me concedesse a permissão.

Chicana

Poetas e rosas só deveriam envelhecer se fosse absolutamente inevitável, e depois de esgotados todos os recursos.

Frase

Poetas velhos são mais patéticos que poéticos.

Lembrança

Tínhamos tanto a dizer. Dissemos amor - e tínhamos dito tudo.

Gostou daquilo?

Algumas manhãs depois daquela em que me deixara beijar seu ombro, a condessa me perguntou: "Gostou daquilo?" Não me lembro de ter conseguido dizer uma palavra, mas meus olhos certamente falaram por mim, enquanto a condessa prometia: "Qualquer dia vamos fazer aquilo de novo. Você já mordeu alguém?"

Maneirismos (para Rose Marinho Prado)

Nem toda literatura antiga é boa. Alguns personagens ficavam com a pulga atrás da orelha, davam tratos à bola e falavam com seus botões.

Um trecho de Jean-Yves Leloup

"No olhar de uma criança que morre, ou que nos sorri, há algo mais que matéria. Pode-se explicar esta intuição quanto se quiser, pelo funcionamento de nossas sinapses ou pela complexidade crescente do funcionamento de nossos neurônios, de nossos átomos, o que aparece no olhar de uma criança, o que vem ao meu encontro aqui, na matéria... não é matéria."
(De Nomes de deuses, tradução de Maria Leonor F.R. Loureiro, Editora Unesp.)

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Carnê Foice

Morrer um pouco por dia,
Morrer um pouco por mês,
Sem pressa, sem correria,
Morrer um pouco por vez.

Só o ombro

Eu tinha acabado de prestar um dos meus prosaicos serviços de lacaio e perguntei à condessa Olga se ela precisava de mais alguma coisa. Ela estava sentada à mesa do café da manhã. O conde Olof tinha saído. Ela pediu que eu me aproximasse. "Me beija o ombro", eu a ouvi dizer, e era tão espantoso isso que eu me mantive de pé diante dela. "Me beija o ombro", ela repetiu. Eu hesitei ainda um instante. "Me beija o ombro." Era macia a blusa da condessa. Meus lábios se fixaram ali até o momento em que, instigados pela ousadia, resolveram aventurar-se pelo pescoço. Imediatamente ela os afastou. "O ombro, só o ombro."

Ma Belle

A eguinha chamava-se Ma Belle. Nas manhãs de bom tempo, a condessa passeava com ela pela propriedade. Voltava sempre com o rosto coradíssimo. Execrava, com bom humor, a égua. Dizia que ela era maluca e cada vez corria mais. Um dia ou outro, a condessa recontava também alguma piada de Ivan, o cavalariço. E, porque eram sempre histórias picantes, seu rosto se avermelhava ainda mais. Eu, sempre mordido pela inveja, me perguntava se contar piadas tinha sido o único motivo para ele receber da condessa a honra de dar nome ao mais novo, e favorito, dos seus cães. Ivan era mais grosseiro que o conde, isso me parecia óbvio. E, quando eu passei a supor que a grosseria talvez fosse uma virtude apreciada pela condessa, passei a desejar também que, se houvesse em mim um traço qualquer de nobreza, ninguém chegasse a notá-lo. Se me perguntassem qual seria minha maior aspiração, eu diria: quero ser o mais rude dos homens.

Hoje, no portal do Estadão

Um pouco daquela história do rei Eduardo VIII.

http://emais.estadao.com.br/blogs/escreviver/sexo-oriental/

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

A pergunta

Se eu fosse me entrevistar, começaria perguntando não por que imaginei que poderia ser escritor, mas por que continuo imaginando.

O periquito

O periquito estava tão  moribundo quanto o realejo e seu velho dono. Tão moribundo que seus parcos movimentos já eram atribuídos a cordéis manipulados pelo velho. Não piava mais. Se piasse, seria também certamente por artes de ventriloquia do velho.

Um e outro

Louco não é o poeta, que vive conversando com suas mil e uma estrelas. É o astrônomo, que se cansou de conversar com todas e vive procurando novas.

Atualização

Os poetas modernos sabem que a época está mais para patos que para cisnes.

Probabilidades

Se viessem a me conhecer bem, talvez as pessoas chegassem a gostar de mim. Quem sabe até aquela que diz me conhecer tão bem.

Permissão

Se eu fosse um passarinho, daria um jeito de me enfiar num poema do Quintana e, se alguém viesse me expulsar, eu protestaria: foi seu Mario quem me deixou entrar.

Ordem pública (para Paula Giannini e Veronica Stigger)

Na noite em que as nuvens desandaram a lançar flores em vez de chuva sobre a praça, a polícia prendeu todos os poetas da cidade, que por sinal eram três.

Amor (para Inês Pedrosa)

Minhas mãos descobriram pacientemente o formato de minha melancolia, sabem que ela é como um bebê e a embalam cada vez mais maternalmente.

O conde (para Luiz Vita)

Só posso atribuir à inveja a antipatia que desde o começo senti pelo conde Olof. O que havia, naquele homem grosseiro, que pudesse atrair uma mulher como a condessa? Fortuna não era, porque, como fui sabendo aos poucos pelos criados antigos, ela já nascera rica. Essa descoberta me fez muito mal. Passei a imaginar aquelas mãos imensas, aquelas pernas fortes, aquele corpanzil deitado na cama conjugal. Comparei tudo com a minha inexpressiva figura de lacaio e depois disso assumi a minha amarga inferioridade.

Peculiaridades

Personagens antigos cofiavam a barba e franziam o nariz.

Precaução (para Liberato Vieira da Cunha)

O delegado de costumes proibiu a realização do baile das conjunções copulativas.

Esperança (para Deonísio da Silva)

Se alguma rebelião ocorrer na gramática, será chefiada pelas conjunções adversativas.

Conselho

Sei que é uma daquelas chamadas hipóteses remotas, mas de qualquer maneira anote: fuja das condessas.

Ponto alto (para Rose Marinho Prado)

Quando se ouve um poeta parnasiano contar histórias, sempre se aguarda o momento em que ele falará da importância dos cisnes em seus sonetos.

Recorrente (para Angela Brasil)

Há sempre aquele defunto que um mês depois julgamos ver dirigindo um táxi e, cinco anos mais tarde, saindo do consultório de nosso psicanalista.

Início de "Os vestígios do dia", de Kazuo Ishiguro

"Parece cada vez mais provável que eu vá realmente empreender a viagem que já há alguns dias me vem ocupando a imaginação. Viagem, devo dizer, que empreenderei sozinho, no conforto do Ford do Sr. Farraday; viagem que, do modo como a imagino, levar-me-á a percorrer grande parte da mais bela região da Inglaterra até as terras do oeste, e pode me manter afastado de Darlington Hall por uns cinco ou seis dias."
(Tradução de Eliana Sabino, Editora Rocco.)

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Justiça (para Inês Pedrosa)

A alguns defuntos, surpreendidos num dia infeliz, deveria conceder-se nova chance, para desfazerem a má impressão.

Fisionomia (para Inês Pedrosa)

De modo geral, o que se pode dizer dos defuntos é que a maioria deles teria melhor aspecto se morressem dez anos mais jovens.

Poema do viaduto (para Silvana Guimarães)

Nosso melhor crítico somos nós.

Ninguém melhor que nós saberia
como escolhemos o homem
como o fizemos sofrer
como o atormentamos
como o supliciamos
como o levamos a descrer
de tudo que o fazia viver
e lhe indicamos o viaduto
e lhe dissemos pula e ele pulou.

Quem melhor que nós saberia
que a voz que incitou o homem a pular
e a voz que gritou ao saltar
eram a nossa voz?

Terceiros

Que os olhos alheios,
se não nos tornarem mais belos,
não nos tornem mais feios.

Fogo brando

Dizer que a condessa Olga me seduziu já no primeiro olhar seria obedecer a um dos ritos inerentes aos relatos deste tipo, mas poderia dar ao leitor a impressão de que lhe serão oferecidas, a seguir, cenas de chama e paixão. Se houve chama e paixão, foram as que me consumiram. A condessa Olga sempre me tratou com frieza desdenhosa, sempre teve o exato controle dos seus cordéis.

As azeitonas

Jamais verei alguém espetar uma azeitona tão compenetradamente quanto a condessa Olga. Não sou um homem refinado, embora alguns lacaios atinjam essa condição, e espetar azeitonas com palitos talvez seja indigno de uma condessa. Mas dificilmente quem a visse espetá-las diria que aquilo não era um ato artístico. Eu me sentia sempre tentado a aplaudi-la. Uma noite ela alcançou a perfeição. Uma a uma, havia levado à boca meia dúzia de azeitonas, e eu, observando as que no prato esperavam sua vez, senti aflição por elas.

Início de "Moll Flanders", de Daniel Defoe

"Meu verdadeiro nome é bastante conhecido nos arquivos ou registros das prisões de Newgate e Old Bailey, e certos processos de maior ou menor importância relativos à minha conduta pessoal encontram-se ainda pendentes. Por isso não se deve esperar a inclusão de meu nome ou de especificações sobre a minha família, nesta obra."
(Tradução de Antônio Alves Cury, Editora Abril.)

terça-feira, 3 de outubro de 2017

As duas meninas da condessa (para Ana Farrah Baunilha)

Os braços da condessa Olga eram gorduchos, pareciam duas meninas saltitando ao sol. Ela gostava deles e os exibia fartamente. Eu gostava deles também.

Atenuante

Você não deveria cobrar-se tão severamente assim. Seu retrospecto literário talvez não seja ruim como você pensa. Há nele uma centena de sonetos, é verdade, mas quem hoje se importa com sonetos?

Nós

Alguma coisa fizemos, como não?
Houve uma premiação
em que um de nós foi elogiado,
outro foi honrosamente mencionado
e um terceiro teria vencido
se houvesse concorrido.
Alguém pergunta: foi concurso de quê?
Não lembro exatamente,
admito que não,
mas foi algo importante, sim:
um concurso de contos,
um concurso de poesia
ou outra coisa assim.
Se foi só isso? Não, houve mais.
Espere um pouco, que eu tenho
tudo ali naqueles jornais.

Época

Cheguei a crer em alguma pureza. Foi na época em que palavras como amor e alma significavam muito mais para mim. Eu era jovem e tolo, e assim fui até ouvir a voz que me disseram ser a da razão.

Ainda, e sempre, Henri Frédéric Amiel

"Um rimador não é um poeta; um orador não é um artista. É necessário esposar a profissão para nela distinguir-se; é necessário possuir a fundo o seu instrumento para fazer parte do conjunto."
(De Diário íntimo, tradução de Mário Ferreira dos Santos, publicação da É Realizações.)

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Provador

A condessa Olga, em algumas noites nas quais o conde se atrasava para o jantar, pedia que eu provasse a sopa e dissesse se não estava quente demais. Só depois, com ávidos estalos de língua, começava a tomá-la. Nunca com a colher que eu havia usado.

Nomes

O nome do conde para o qual naquela época trabalhei era Olof. O da condessa era Olga. A condessa amava cachorros. Tinha seis. Seu favorito chamava-se Ivan, como o cavalariço da propriedade.

Uma lembrança (para Ana Farrah Baunilha)

No tempo em que fui lacaio na casa da condessa Olga, até o gato dela me dava ordens. Se queria água ou comida, fitava-me com aqueles olhos despóticos, iguais aos da dona quando, instigando-me a beijá-la, me advertia: "Só o ombro, só o ombro."

Os cânticos

Tudo que ouvimos nesta cidade é ruído, desde que nos levantamos até o instante no qual voltamos a nos deitar. Os bem-aventurados que às vezes ouvem cânticos celestiais já não os mencionam, não por piedade de nós, mas para que não os encaremos como se costuma encarar os mentirosos.

In extremis

Talvez nos caiba a sorte de morrer sem estrebuchar. Se nos perguntassem hoje qual bênção nosso descaramento poderia ainda pedir, certamente escolheríamos essa.

Autorretrato

Quando você se diz indigno, inútil e inepto, você revela seu autoconhecimento e sua autocomiseração. Você é muito pior do que tudo isso.

Único

Ele gostaria de ser o gato de uma garota que nunca tivesse tido nenhum e houvesse esperado por ele ao menos cinco dos seus quinze anos de vida.

Inépcia

O que falta fazeres para acreditarem que és ainda mais indigno do que tuas próprias palavras, nos teus próprios lábios, há tanto tempo dizem?

A tarefa

Não arrefeça, não esmoreça. Destruir-se é uma tarefa para a qual você não pode contar nem com seu melhor amigo, se você o tiver, nem com Deus. Os amigos são negligentes e Deus tem compaixão até pelos seus piores filhos.

Origem

Também você imaginou que  tivesse algo a dizer. Assim começam quase todos os grandes equívocos literários.

domingo, 1 de outubro de 2017

Medida (para Paula Giannini e Veronica Stigger)

Uma lição de estética que eu já poderia ter aprendido é chorar com moderação.

Cotação do dia

Pelo menos num domingo, um homem, por mais reles e atormentada que fosse sua alma, deveria ter motivos para sorrir duas ou três vezes.

Hipótese

Sou um homem que valeria pelo espírito, se por ventura ou porventura o tivesse.

Face oculta

Se pudessem ver como se infla tua vaidade quando dizes que és o mais vil de todos os seres.

Ego

Mais que você, quem
se orgulhará do que tem?
Você se arrasta como um verme
e proclama que ninguém
se arrasta melhor que você.

Final de "Despedida em Las Vegas", de John O'Bri

"E o corpo sem vida esfria na cama de hotel; sem sentir o beijo dela, rasgado da sua alma e enviado aos lábios como um ato final, para levar a termo as horas que passou na janela, olhando para os olhos mortos fixos no teto e para ensinar a ela um modo de tocá-lo além do ato de fechar seus olhos; sem ver os olhos dela, a princípio úmidos, depois secando e ficando secos, mesmo quando os soluços começam a subir do peito, para se perder no vozerio do cassino quando ela sai do hotel; sem ter consciência da cama dela, da verdade da sua vida, que com passo vago segue para seu apartamento. Sera tira a roupa, escova os dentes e fica deitada, acordada, no escuro."
(Tradução de Aulyde Soares Rodrigues, Ediouro.)

sábado, 30 de setembro de 2017

Em defesa da inveja

Senhor, somos nós ou vós
quem a inveja semeia?
Vós nos criastes, Senhor,
para aplaudir a glória alheia?

Resumo final

Poderíamos ter feito mais,
poderíamos ter feito melhor.
Poderíamos ter tido sorte
como aquele apostador
que contra um milhão de outros
foi o ganhador.
Poderíamos, poderíamos, poderíamos.
Sempre há quem querendo possa.
Poderíamos. Não pudemos. Falha nossa.

Trajetória

Ontem ou anteontem
eu fui dali até ali.
Foi em 1980 ou
em 1990 talvez,
um dia, uma vez.
Essa  é toda minha história,
toda minha trajetória.
Não estou em nenhuma antologia,
em nenhuma seleta de poesia.
É coisa minha, só.

Dessintonia

Em mim, por um lance da ironia,
a fase da reflexão não coincidiu
com a idade da sabedoria.

Carpe diem (para Ana Farrah Baunilha)

Ao corpo! Ao prazer! Avante!
Gozar o que há enquanto há.
A carne dura um instante,
Amanhã morta estará.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

O herói hoje (Para Silvana Guimarães)

Nem pensar em epopeias,
em ilíadas, em odisseias.
Curto é o teu caminho
e o teu tempo agora é
o do sofá e o do chá morninho.
Tudo te fere, tudo te dói,
e tu te queixas e tu gemes.
Que vergonha teriam teus netos
se te comparassem a um herói,
a qualquer herói dos videogueimes.

Cotação do dia

O que podes dizer da alma, com alguma convicção, é que, se a tens, não a mereces.

Hoje no portal do Estadão

Conto uma história de gato.
http://emais.estadao.com.br/blogs/escreviver/o-gato/

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Modernidade

Nada mais hoje é ocasional.
Tudo é planejado, tudo marcado,
Até o sexo casual.

Não mais

Um dia você torce o lirismo, e as duas gotas que pingam na pia vêm não dele, mas de você e dos seus olhos tolos.

Romantismo

Antigamente havia também ladrões
mas furtavam só beijos
e roubavam só corações.

Roteiro

Se você for um homem objetivo, como o tempo atual exige, e julgar que nasceu para a poesia, eu o aconselho a dedicar-se pelo menos dois anos, intensamente, à aprendizagem poética. Leia manuais de métrica e versificação, ensaios críticos, tudo. Ao mesmo tempo, procure conhecer os poetas, os maiores. Vencida essa etapa, comece a escrever. E empenhe nisso dois, três, quatro anos. Escreva, escreva, escreva. Se até o quinto ano você não tiver conseguido o Nobel, jogue tudo para o alto e pense em outra coisa.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Ela (para Ana Farrah Baunilha)

No tempo dos românticos, a Morte era alta, loira, leve, e prometia obscenidades num francês de erres molhados enquanto, valsando com o par, o conduzia do salão multitudinário para o jardim de banco único, ocupado pela lua alcoviteira.

Profecia

Previu Nostradamus
Que seríamos grandes, muito grandes.
Onde foi, quando foi que falhamos?

Início de "A balada do café triste", de Carson McCullers

"A própria cidade é melancólica. Não há muita coisa nela além da fábrica de fios de algodão, das casas de duas peças onde vivem os operários, alguns pessegueiros, uma igreja com dois vitrais coloridos e uma miserável rua principal, medindo apenas uns cem metros."
(Tradução de Caio Fernando Abreu, Editora Globo.)

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Nem tudo

Se quem fala mal de ti soubesse que há tanto mais para falar...

E aquilo?

Você não matou o pai nem a mãe, não furtou esmolas de igreja nem torturou gatos, mas aqueles sonetos, ah...

Cotação do dia

A literatura é uma desculpa que há muito tempo não te atreves a apresentar.

Miséria

Na fase final da vida, pobre e abandonado, havia manhãs em que o poeta parnasiano contemplava seu último cisne com olhos de fome.

Carimbo

Malfadado Alighieri! Tanto talento, tanto empenho, para no fim se tornar célebre por suas cenas dantescas.

Aparência (para Henrique Fendrich)

Há mortos tão desmazelados e deprimentes que mais parecem sobreviventes.

Prazo limitado

A simpatia de alguns defuntos dura só até a abertura do testamento.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Inferno (para Ana Farrah Baunilha)

O que o Inferno tem de melhor são os caminhos que a ele conduzem.

Higidez

Que esplêndido é o nosso exemplo.
Respiramos ainda, e andamos,
Embora nunca ao mesmo tempo.

Realidade

Sei, há muito tempo já, que sou no máximo, nas poucas vezes em que consigo algo parecido com literatura, um tantinho mais que medíocre.

Etiqueta

Se for tentado a se dizer poeta, um homem velho deve pedir desculpas, antes e depois.

A pergunta

Toda vez que você se vê no espelho, aquele resto de poesia que subsiste em você se apequena mais um pouco.

Literatura

Você não imaginou, nem poderia, que o seu sonho de menino estaria, tantos anos depois, irrealizado e nas mãos de um velho incompetente.

Início de "O destino bate à porta", de James M. Cain

"Eles me atiraram para fora do caminhão de feno lá pelo meio-dia. Eu tinha entrado no caminhão na noite anterior, perto do lago, depois da fronteira, e, assim que consegui me enfiar debaixo da lona, peguei no sono. Era o que eu bem precisava depois de três semanas em Tia Juana, quase sem dormir, e ainda estava roncando quando eles estacionaram para dar um tempo para esfriar o motor.Então, viram meu pé aparecendo e me puxaram para fora. Tentei fazer graça, mas os caras continuaram na deles, de modo que a piada não colou. Apesar de tudo, os sujeitos me deram um cigarro e eu comecei a andar pela estrada, procurando um lugar para comer."
(Tradução de Evelyn Kay Massaro, publicado pela Brasiliense.)

domingo, 24 de setembro de 2017

Se

Se mordesse logo no primeiro encontro, ao invés de trazer flores, o amor não seria o amor.

O ceifador

O amor mata os grandes poetas e às vezes até os nem tanto.

Norma

De vez em quando, o poeta deve falar de amor, para não pensarem que ele é sempre fútil em seus temas.

Confissão

Agora, que a idade te absolve de quase tudo, talvez tu possas admitir que foi a vaidade que te levou ao caminho da literatura.

Espaço

Cada um de nós é, de certo modo, histórico. Eu sou pré.

Na revista Rubem (www.rubem.wordpress.com)

Hoje eu falo de coisas de interesse muito duvidoso.

sábado, 23 de setembro de 2017

Rito de passagem

O pior que nos acontece quando nos tornamos adultos é que não podemos mais escrever só aquelas coisas bonitinhas.

Ora

Acho curioso dizerem que alguém se dedica inteiramente à literatura. Existe algum outro modo?

Amor antigo

Ser triste é, para mim, desde a adolescência, um compromisso. Era isso ou rir como os bocós.

A mágoa

O que me dói, mesmo, é duvidarem de minha tristeza.

No tranco

Alguns sofás custam a descobrir que sua vocação é a de servirem de afiadores de unha para o gato da casa.

Paizão

Nas histórias que conto, sempre arranjo um jeito de dar à tristeza o papel principal.

Lógica

Uma regra elementar de decoração é: o melhor sofá é o do gato. O resto se ajeita por si só.

Convicção

Mesmo quando se trata, como no meu caso, de uma vocação, ser triste é às vezes cansativo e exige certa força de vontade.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Traço essencial

É sempre com orgulho que me proclamo triste. Vejo nisso, não posso negar, minha única superioridade.

Aviso na porta

Não me venha com histórias tristes. Não consigo dar conta nem das minhas.

Hipótese

Se escrever fosse ao menos considerado um vício - e curável.

Reconhecimento

Como és incompetente. Outro teria te destruído na metade do tempo.

Dívida

Espero que minha melancolia tenha raízes polonesas. Ela é o que tenho de mais autêntico.

Mania

Minha tristeza é daquelas que só aparecem à janela em tardes de chuva.

Bicho do mato

Às vezes, gostaria que minha tristeza fosse um pouquinho mais sociável.

Antiguidades

Gosto de delicadeza na poesia. Sou antigo, preciso dizer? Quem, se não um velho, fala hoje em delicadeza? E em poesia?

Ainda que tardio

Um dia teu talento será reconhecido. Um dos teus netos, um homenzarrão de trinta anos, ou quarenta, encontrará aquela tua redação tão elogiada no tempo de colégio.

Literatura

Não se mate buscando a perfeição. Alguém já fez - ou fará - muito melhor que você.

Resumo

Sou todo mofo, menos aquela pequena parte de mim que ainda teima em não se resignar.

Majestade

O sol merecia ser um pavão, o mais vaidoso e performático de todos.

Sempre

A retórica sempre encontra um jeito de se pendurar no bico do passarinho quando ele vai iniciar o canto, com o pretexto de aprimorá-lo.

Sim, ou quase

Poesia talvez não seja o melhor que um homem pode fazer, mas é bem provável.

Volta

O caminho do poeta, por mais longo que seja, é sempre um retorno à simplicidade da infância.

Concretude (para Rose Marinho Prado)

Quando os frutos começaram a despencar sobre sua cabeça, o poeta concretista lamentou ter feito sua macieira com areia, tijolos e cimento.

Nenhum mais (para Silvia Galant François e Liberato Vieira da Cunha)

Nunca eu soube de outro poeta que, como Mario Quintana, andasse pela rua dizendo: não, obrigado, hoje não, quem sabe amanhã. Os passarinhos, mal o viam sair de casa, começavam a lhe oferecer canções.

Futuro

Um dia talvez eu aprenda a escrever. Aí será tarde.

Sempre, sempre, sempre

Escrever, escrever, escrever. Tem sido isso, todo o tempo. Quando você começou, era assim. Você não pressentiu que seria sempre assim? Escrever, escrever, escrever.

Dois terços

Chegou, soleníssimo. Tinha na mão direita a Constituição e, na esquerda,o Código Penal. Para ser uma pessoa jurídica perfeita, conviria que estivesse num tribunal, não num ponto de ônibus, e tivesse, pendurada no pescoço, a balança da Justiça.

Hoje no portal do Estadão...

... um capítulo da agradável vida em família.
http://emais.estadao.com.br/blogs/escreviver/tudo-quase-otimo/

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Perfil sem retoques

Escrevo para agradar. Me empenho, me esfalfo, me mato. Se eu fosse um cão, seria o mais abjeto de todos, pior que o mais execrável dos homens. Um osso, por favor.

Educação artística

Orgulha-se de ter refinado sua tristeza com a literatura e a música.

Melancolia

Tem estado estranho. É capaz de chorar ouvindo um noturno de Chopin, e até sem ouvir música nenhuma.

Números

Não tem base estatística a afirmação de que as mais sinistras novelas policiais foram escritas com a mão esquerda.

Refúgio

As palavras difíceis, aquelas que nos fogem assim que as aprendemos, vão todas se esconder no dicionário.

Segundo turno

Falando com sinceridade, a esta altura de minha velhice já nem me importa ser um bom escritor. Bastaria que os leitores assim me imaginassem.

Item dispensável

A enfermeira contratada pela família do escritor setuagenário cuida dele há uma semana e tem achado muito fácil o trabalho. A maior parte das tardes ele passa no sofá. Quando acorda dos cochilos, pede só um chá morninho, os óculos e o jornal. No primeiro dia perguntou se ela poderia ir buscar o estilo, mas, porque ela não sabia o que era, ele se resignou e não repetiu o pedido.

Fortuna poética

No auge da carreira, o poeta parnasiano gabava-se de ter mais de cem cisnes no acervo.

A sombra (para Henrique Fendrich)

A mais abominável companhia que um homem pode ter é a de um escritor. Se o escritor for ele, pior ainda.

Luíses (para Liberato Vieira da Cunha)

Quem nasce para Luís Ferrabrás
ou para Luís Ladravaz
não chega nunca a Luís Vaz.

Vira-casacas

Quem descamba para o humorismo são, geralmente, aqueles que não veem mais futuro na tristeza.

Habilitação (para Rose Marinho Prado)

As provas para um poeta demonstrar sua autenticidade deveriam ser mais simples. Uma delas poderia consistir em verter para um soneto clássico, em quinze minutos, um poema concretista de dois metros e meio.

Comme il faut

O lançamento de uma antologia de poetas bissextos só pode ser legítimo se for feito num dia 31 de fevereiro - se bem que 32 fosse o ideal.

Iniciação (para Paula Giannini e Veronica Stigger)

Aos manuais de estilo só deveriam ter acesso os leitores que já houvessem demonstrado desvios de conduta próprios da abominável classe dos escritores.

Primeiro capítulo (para Inês Pedrosa)

Escrever é como tudo na vida: dar o primeiro passo e esperar que Deus aprecie frases tolas.

"Na mão de Deus", de Antero de Quental

"Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva no colo agasalhada
E atravessa, sorrindo, vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!"

(Extraído da coleção Nossos Clássicos, Livraria Agir Editora.)

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Atualização

Hoje, a frase de Buffon seria: "O estilo é o homem, e a mulher é a literatura."

Physique du rôle

Às vezes até eu acho ter certo jeito de escritor.

Bula (para Ana Farrah Baunilha)

O amor ainda é remédio que se receite, desde que nos deixe gozar todas as contraindicações.

Composição escolar

São Paulo é aquela cidade onde mora o Corinthians.

Conjunto Nacional

Foi atingido pela beleza na escada rolante do  metrô. Se quisesse diminuir aquilo, como costuma fazer com tudo que lhe ocorre, diria que foi o sol nos olhos, no fundo nada mais que isso, nada que pudesse ser comparado a um instante de ouro ou uma cintilação. Estava na Paulista, e era espantoso que o milagre da poesia se revelasse a ele num lugar tão prosaico. Sorriu ao chegar ao topo da escada. Se tivesse pensado em voar, conseguiria.

Poesia (para Celina Portocarrero)

Feliz pode não ser o termo. Aliviado, quem sabe. Parece que começam a compreender sua tristeza. Talvez esteja aprendendo a usar as palavras. Pode ser que poesia seja isso.

Missão (para Paula Giannini e Veronica Stigger)

Nos dias em que não tem nada para escrever, escreve qualquer coisa. Atingiu a autossuficiência daquelas árvores que, mesmo quando não têm um fruto a oferecer, balançam seus galhos, sob o pretexto de que o vento as fustiga.

A verdade (para Silvana Guimarães)

Poesia propriamente nenhuma.
Fiz só poses de poeta
No tempo em que todos
Precisavam ter uma.

Síndrome de Borges

Em 2013 uma canadense ganhou o Nobel de Literatura. Não foi Margaret Atwood.

O sonho

Teve o sonho há uma semana. Acha que ele se repetira, quer que se repita, e, como se fosse uma incitação, vai rememorando os detalhes. Está diante de um prédio, à noite. Não há uma luz acesa. Acende-se uma, no terceiro ou quarto andar. Como se fosse um filme e houvesse um corte, ele se vê num apartamento, dançando com uma mulher. Ela o beija e lhe oferece uma bebida. Ele pega o copo e, na cena seguinte, está fora do prédio, agora completamente escuro, e se afasta. Na próxima vez, prolongará o beijo, não aceitará a bebida e continuará dançando, como se o sonho, chegando a esse ponto, não pudesse ir a mais ponto nenhum.

A causa

Penso, ainda hoje, que todos os meus infortúnios tiveram como origem a minha malograda tentativa de ser poeta. Foi há muito tempo, muito. Até agora não consegui melhor desculpa.

Sete versos de Margaret Atwood

"Ao observar o poeta - o poeta conhecido -
saquear suas entranhas, expondo
todo seu estoque de pensamentos destrutivos
e vergonhosas lascívias,
seus ódios rançosos, suas ambições fracas mas estridentes,
você não sabe se sente desdém ou gratidão:
ele está fazendo nossa confissão por nós."
(Do poema "Leitura de poesia", do livro A porta, tradução de Adriana Lisboa, publicado pela Rocco.)

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Declaração

Eu gostaria, sim, de ser um símbolo sexual. Tentaria, até, ser verossímil, como tentei quando quis ser poeta.

O maligno

Se alguém ainda me instiga é o Diabo. Ele vem e sugere que eu feche os olhos e me solte. Um segundo depois me vejo em bordéis onde mulheres nuas dançam com sapatos de salto altíssimo e, quando me notam, me chamam como lobas: Raul, Raul, Raul. Eu corro para elas e, ao chegar ao centro do palco, estou de alpargatas - nu também, e feliz como um garoto no seu primeiro dia de praia.

Literal

Hoje o que lhe causa prazer são as palavras: seios, coxas, umbigos, lábios, nucas. Ele se deleita com elas. Deleitar-se é o termo exato. Tem a ver com líquido, espuma, borbulhas, leite, mornidão.

Sabedoria

Entre um poeta gordalhufo e um poeta magricelo, as mulheres costumam preferir um personal trainer ou um jogador de futebol.

Definições (para Ana Farrah Baunilha)

Nem sempre o amor é só química, como dizem. Às vezes é só física e trabalhos manuais.

Justiça

Pode-se achar que não é sincero quem se diz abjeto, reles e asqueroso, mas convém louvar o capricho com que escolhe seus sinônimos.

E se...? (Para Ana Farrah Baunilha)

Tenho medo de chegar ao Inferno e fazerem pouco dos meus pecados.

Prenda de anos (para Inês Pedrosa)

Inês, é hoje, então? Bem senti que a brisa queria dizer-me algo. Como podes ter um amigo assim velhote e mouco?

Marlene Dietrich (para Deonísio da Silva e Liberato Vieira da Cunha)

De uns tempos para cá lhe surge em sonhos uma vampira deliciosamente loira, como Marlene Dietrich, que vestida de corista dança e canta para ele um fox cheio de erres arrepiantes e exibindo maravilhosos dentes diz que vai devorá-lo. Nessa hora ele sempre grita que não quer, que não vai deixar, e acorda decepcionadíssimo.

De bombacha

Se fosse em Porto Alegre se entenderia, mas é aqui, num casarão da Paulista, que vem aparecendo recentemente um fantasma que deixa na sala um cheiro de chimarrão e no ar um grito: "O povo quer de volta o Getúlio!"

Ritual

Ficou na ponta dos pés, olhou para o céu, disse Deus me ajude, fez o sinal da cruz e atirou-se na piscina.

História dos três ratinhos (para o Gianluca e a Nicole Drewnick)

Eram três ratinhos. O primeiro morreu de fome, o segundo de sede. O terceiro teve o fim mais óbvio: foi almoçado pelo gato da casa.

Transporte

Com o modernismo, os poetas desceram das nuvens e foram obrigados a usar condução.

Vice-deuses

Infinita é nossa presunção. Chegamos outro dia ao planeta e já nos achamos responsáveis pela sua sobrevivência - ou por sua destruição.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Documentário

Nos anos finais, José Saramago parecia um leão exibido pelos circos do mundo.

Medida

Nossos sonetos poderiam ser considerados até bons, se não tivessem chegado antes Shakespeare e Camões.

Poeminha urbano

Atirado à correnteza, o sofá,
Sem remos e sem destreza,
Não sabe se sobe ou desce o rio
Ou se escapa por um desvio.

Símiles

Somos da mesma laia.
Mereces também sobre a tua
O raio que em minha cabeça caia.

O trunfo (para Silvana Guimarães)

Sim, o que te poupou da morte
foi a tua poesia -
se é esse o nome que dás
a essas algaravias rimadas
com que os deuses
entre gargalhadas
pacificam a dispepsia.

Ceticismo

Se um passarinho pousar em sua ameixeira, não se entusiasme. Será certamente um daqueles que, pela aspereza do canto, são expulsos de todos os lugares, pelos homens e pelos próprios passarinhos.

O jeito

Cada um tem seu jeito de tentar parecer melhor ou menos insignificante do que é. Eu escolhi a literatura, embora as pessoas não tenham percebido.

domingo, 17 de setembro de 2017

Concurso

Depois da celebração magistral
ao ganhador principal
dos louvores
aos vice-ganhadores
e das referências interelogiosas
aos julgadores
chegará tua vez
e a de mais vinte e três -
os afagos genéricos
e as menções honrosas.

Pavor

E se Deus, no dia do Juízo Final, quando chegar tua vez, perguntar: "Este é então o homem dos sonetos?"

Uma frase do "Diário íntimo", de Henri-Frédéric Amiel

"É um alegre banquete, o banquete da borboleta que brinca e se alimenta nos prados. Ora, a alma também é uma borboleta."
(Tradução de Mário Ferreira dos Santos, publicado pela É Realizações.)

sábado, 16 de setembro de 2017

No portal do Estadão

Uma crônica sobre cartas e cartomantes.
http://emais.estadao.com.br/blogs/escreviver/intuicao-feminina/

Talião

Escrevamos, por que não?

Nossos amigos escrevem,
Nossos inimigos escrevem.

Por que abdicaremos nós
Ao direito de retaliação?

Um poema de Moacir Amâncio

"a nau aportará um dia neste cais
vazio sempre mas jamais de passageiros
todos à espera desse algum por tudo incerto
tanto a partida qual também toda chegada
seja amsterdã ou mesmo o bósforo
ainda recife pode ser constantinopla
onde seremos por demais talvez em rhodes
faremos lá a nossa língua e outras folhagens
entanto até jerusalém porto será
para os jamais desencontrados mal seguros
como se o mar um ladrilhado logos fosse
mas com porém lugar aberto a bambos pés
novos caminhos quando nunca sendo os mesmos
e os tantos olhos cegos a buscar navios."
(Do Caderno 2 do Estadão, 16/9/2017.)

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Lavoisier

Nada se perde,
tudo se transforma.
Pastichamos Shakespeare
com similar conteúdo
e semelhante forma.

Conselho

Não te preocupes em tornar tua literatura refinada. Com essa cara cretina que tens, o que os outros esperam de ti é o que tu mesmo esperas: nada.

Na forma da lei

Não nos censuremos por avaliar severamente os outros. Na maioria dos casos, ainda que não saibamos, pode tratar-se de legítima defesa.

Música à meia-noite

Talvez já se imponha uma fiscalização sobre a atividade dos fantasmas, principalmente daqueles que, em dupla, vêm perturbando o sono de famílias com cantorias sertanejas apresentadas sob o disfarce de canções medievais.

Autenticidade

Tudo bem, fantasmas são fantasmas. Eles têm status multissecular. Mas, francamente, esses que sem mais nem menos vão se apresentando como Shakespeare ou Dostoiévski me deixam tentado a lhes pedir o crachá.

Um pouco mais de Henri-Frédéric Amiel

"A minha indiferença é antes adquirida que original. O que é antigo em mim é a desesperança, e a reflexão preferida à ação. O mal de Hamlet é também o meu mal. É, igualmente, a tendência de uma grande parte dos pensadores alemães, e o fundo búdico da doutrina de Schopenhauer. O impulso animal e a vontade são inferiores ao pensamento."

"Que importa a opinião cega, o teu caráter desconhecido, as ingratidões sofridas? Tu não és obrigado a seguir os exemplos vulgares, nem a seres bem-sucedido. Faze o que deves, aconteça o que acontecer, Tens um testemunho, a tua consciência; e a tua consciência é Deus que te fala."

"Como triunfar do mau humor? Primeiro, pela humildade: quando se conhece a própria fraqueza, por que se irritar de a perceberem os outros? São pouco amáveis, sem dúvida, mas estão dentro da verdade. A seguir, pela reflexão: afinal de contas permanecemos o que somos, e se demasiado nos estimávamos, isso é apenas uma opinião a modificar; a incivilidade do próximo nos deixa tais como éramos. - Sobretudo pelo perdão: há somente um meio de não detestarmos os que nos fazem mal e são conosco injustos, é fazer-lhes o bem; vencemos a cólera pela benignidade; não os mudamos, a eles, com essa vitória sobre os nossos próprios sentimentos, mas dominamos a nós mesmos."
(De Diário íntimo, tradução de Mário Ferreira dos Santos, publicação da É Realizações.)

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Nunca (para Inês Pedrosa, Paula Giannini e Veronica Stigger)

Jovens, não creiam que os velhos possam ensinar-lhes a arte da literatura. Se a conhecessem, eles a encerrariam na mais inacessível das gavetas, aquela na qual estão os objetos que conquistaram em sua barganha com o Diabo.

Querelas (para Silvana Guimarães)

A mais inflamada polêmica entre os românticos e os concretistas consistiu em definir qual das correntes fez os mais belos (e os mais sólidos) castelos de areia. Enquanto isso, os simbolistas se ocupavam em salvar Ismália.

Impunidade

O poeta romântico e o concretista fizeram uma aposta para ver qual deles conseguirá produzir o melhor arco-íris em casa. Por muito menos se acendia o sagrado fogo da Inquisição.

Como seria

Se os merecêssemos, os poemas cairiam como frutos das árvores sobre nós quando nos deitássemos à sombra delas.

Alerta

A laboriosa classe dos fantasmas divulgou um comunicado em que alerta a população para os impostores que, em crescente número, vêm manchando a imagem dos seus associados.

Início de "O assassino cego", de Margaret Atwood

"Dez dias após o fim da guerra, minha irmã Laura despencou com o carro do alto de uma ponte. A ponte estava sendo consertada: ela passou direto pela placa de Perigo. O carro caiu de uma altura de trinta metros na ribanceira, batendo nas copas das árvores cheias de folhas novas, depois pegou fogo e rolou até o riacho lá no fundo. Pedaços da ponte caíram sobre ele. Não restou quase nada dele além de fragmentos carbonizados."
(Tradução de Léa Viveiros de Castro, publicação da Rocco.)

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Luiz Gonzaga

A família começou a perder o medo do fantasma na meia-noite em que ele assobiou um baião.

Mas

Era um fantasma discreto. Não acordava o casal, dormia na sala. O problema era o bodum que deixava no sofá.

Quase 100%

Seria um fantasma silencioso, se não tropeçasse em cada degrau.

Pro verba

Quem não encheu a mala
sabe muito bem
como é difícil carregá-la.

Estilo (para Rose Marinho Prado)

Pela mania de rimarem tudo, os poetas românticos arranjaram para cada fantasma uma asma.

Vaudeville (para Luiz Carlos Cardoso, Regina Helena Paiva Ramos e Oswaldo Mendes)

Os mais folgados são os fantasmas que chegam, não cumprimentam e, dizendo que estão com frio, vão logo se enfiando na cama.

Fantasma histórico

Uma noite, entrou no quarto um fantasma de cachimbo e ceroula que parecia saído de uma comédia e fez três perguntas a Ismênia: se ali era Londres, se Winston Churchill morava lá e onde ficava o banheiro.

Desdetalhes

O fantasma assemelhava-se a Lima Barreto. Não falava tupi nem javanês.

Características

O último fantasma usava suspensórios e deixou no criado-mudo de Ismália um reclame da liquidação de móveis do Mappin.

Etiqueta

Os fantasmas antigos nunca chegavam antes da meia-noite e traziam seu próprio pijama.

Best seller

Minha ignorância é uma dessas de vigésima edição, revista e ampliada.

Sobre gatos

Escrever sobre gatos talvez não salve uma biografia, mas é sempre agradável.

Rumo

Não temos nada a dizer
Que já não esteja dito:
Esse rumo estreito, estrito,
Entre o viver e o morrer.

Retórica (para Inês Pedrosa)

Retórica é tudo aquilo que você julga ser necessário dizer quando não diz simplesmente que um passarinho voa.

Promessa

Se um dia eu vier a ser um desses alegres que andam por aí, deixarei crescer um bigodinho, para enfeitar meus sorrisos.

Mérito

Erisipela, se não fosse o que é, teria lugar assegurado entre as figuras gramaticais.

Despedida

A mãe, setenta e nove anos, olha com cautela para todos os lados e aperta amorosamente a bochecha do filho, cinquenta e nove: "Não é por você estar morto, você sabe. Eu gosto dos seus irmãos, mas você sempre foi o mais querido. Vá com Deus, Juninho."

"Manuscrito encontrado num livro de Joseph Conrad", de Jorge Luis Borges

"Nas terras trêmulas que exsudam o estio,
O dia é invisível de puro branco. O dia
É uma estria cruel numa gelosia,
Um fulgor nas praias e uma febre no sítio.

Mas a antiga noite é funda como um jarro
De água côncava. A água se abre a infinitos rastros,
E em canoas ociosas, de frente para os astros,
O homem mede o tempo livre com o cigarro.

A fumaça esmaece em cinza as constelações
Remotas. O imediato perde pré-história e nome.
O mundo é um par de ternas imprecisões.
O rio, o rio primeiro. O homem, o primeiro."
(De Obras completas, tradução de Josely Vianna Baptista, Editora Globo.)

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Na revista Rubem

mais um capítulo de minha dispersão (www.rubem.wordpress.com).

Melhor nada (para Sabrynna Angel e Ana Farrah Baunilha)

Sobre o amor, é melhor ignorar que saber. Não deixar sob a guarda da memória nada que ela possa usar como suplício, quando vierem as tardes vazias.

Ideologia planaltina

Nunca estar com a esquerda
nem com a direita
nem com o centro.
Hoje como ontem
e amanhã como agora
estar sempre à espreita,
estar sempre dentro
para nunca estar fora.

Início de "Paraíso perdido", de James Hilton

"Tinham-se apagado os charutos e começava a apontar em nós aquela espécie de desilusão que de ordinário perturba antigos condiscípulos ao se encontrarem de novo, homens feitos, e descobrirem que já não existe entre eles a mesma afinidade."
(Tradução de Francisco Machado Vila e Leonel Vallandro, Editora Abril.)

domingo, 10 de setembro de 2017

Lacuna

Um sofá sem um gato dá sempre certa impressão de tristeza.

Marasmo

Todos os ismos
de tantos modernismos
são hoje um só
comodismo

Que instituições destruir,
que revoluções deflagrar?
Nas outras vezes havia burgueses
para espantar.

Frase de Henri-Frédéric Amiel

"Todos os grandes edifícios  religiosos ou políticos têm o crime por fundamento, a injustiça e a fraude por alvenaria e o sangue humano por cimento."
(De Diário íntimo, tradução de Mário Ferreira dos Santos, publicado pela É Realizações.)

sábado, 9 de setembro de 2017

Marketing

A tristeza é hoje nele
a embalagem dourada
o rótulo
a marca registrada.

Filme

Pode haver dez gatos numa cena. Nenhum deles será coadjuvante.

Argumento

Como negar que os gatos são especiais? Que outro matador de passarinhos nós perdoaríamos com tanta facilidade?

Corpo e alma

Ela pensou que ele quisesse o seu corpo
e sem piedade
em nome de um recente pudor o negou
e da imemorial castidade.

Depois ela pensou ser sua alma que ele quisesse
e premeditando também recusá-la
se pôs cinicamente a valorizá-la -
como se a tivesse.

Frases de "Diário íntimo", de Henri-Frédéric Amiel

"Vestir luto por si próprio é ainda uma vaidade; só devemos lamentar a perda do que vale, e lamentar a perda de si próprio é demonstrar, sem saber, que nos dávamos importância."

"Toleramos os outros, por que não tolerar a nós mesmos?"

"No leito de morte, não deve mais o espírito ver senão as coisas eternas."

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Desperdício

Por muito tempo me empenhei, quase ferozmente, em me autodepreciar. Que tolice! Que loucura! Que presunção! Sempre fui tão reles, tão ínfimo, tão nada. O que mais eu queria alcançar na escala da insignificância?

Nada além

Pragmaticamente considerada, uma morte é apenas o resultado de uma série, lógica ou não, de acontecimentos.

Desatualização

Sou um desses mortos lentos. Disseram-me hoje (praticamente me garantiram) que morri em 2010.

Hoje no portal do Estadão

falo de rostos e caricaturas.

Virtude

Chamarem-me de poeta é algo que já há algum tempo eu venho considerando indício de ainda não estar de todo extinta a generosidade.

Grau de pureza

Os melhores poemas, os mais puros, costumam ser aqueles bem curtos, nos quais a retórica não encontra espaço para a sua costumeira contaminação.

Autoavaliação

Sou um velho impertinente que me aturo cada vez menos.

Início de "O deserto dos tártaros", de Dino Buzzati

"Nomeado oficial, Giovanni Drogo deixou a cidade numa manhã de setembro para alcançar o forte Bastiani, seu primeiro destino.
Pediu que o acordassem de noite ainda  e vestiu pela primeira vez o uniforme de tenente. Quando terminou, olhou-se no espelho, à luz de um lampião de querosene, mas sem sentir a alegria que imaginava. Na casa reinava um grande silêncio, ouviam-se apenas vagos rumores vindos do quarto vizinho; sua mãe estava se levantando para despedir-se dele."
(Tradução de Aurora Fornoni Brenardini e Homero Freitas de Andrade, Editora Nova Fronteira.)



quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Exação

Há tantos ladrões hoje, por aí, que qualquer levantamento sério exige pelo menos uma recontagem.

Nova fase

Agora escrevo pouco para não desagradar muito.

CLT

No feriado minha tristeza merecia ganhar dobrado.

Linhagem

Dos cisnes parnasianos
dois e meio em cada três
dançavam balé
e falavam francês.

Pauta

O ideal é você escrever textos que lhe deem a impressão de feitos por um garoto de quinze anos sem nenhuma vocação ou pretensão literárias. Textos que falem de coisas miúdas ou, de preferência, de coisa nenhuma.

Comodidade

Se você já tivesse morrido, não precisaria mais pensar no assunto.

Início de "O que é isso, companheiro?", de Fernando Gabeira

"Irarrazabal chama-se a rua por onde caminhávamos em setembro. É um nome inesquecível porque jamais conseguimos pronunciá-lo corretamente em espanhol e  porque foi ali, pela primeira vez, que vimos passar um caminhão cheio de cadáveres. Era um tarde de setembro de 1973, em Santiago do Chile, perto da Praça Nunoa, a apenas alguns minutos do toque de recolher."
(Editora Codecri.)

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Sem dúvida

Mãos ao alto é uma das mais inequívocas frases de efeito.

Bloguerias

Todos nós, hoje, temos um blog, com exceção dos que têm dois ou mais.

Ser e não ser

Proclamar que uma rosa é bela não fará de você um poeta, mas certamente você estará dizendo o que alguns dos maiores poetas do mundo falaram dela.

Gentileza

A um morto não se negue o respeito devido a quem está à nossa frente na fila.

A cota

Cinco ou seis palavras diárias, hoje, me bastam. Se fizerem sentido, ótimo. Se louvarem um amor, que não seja um desses bisonhamente carnais.

Elo

A única relação que mantenho com a literatura é o fato de ter querido ser poeta.

Início de "O amanuense Belmiro", de Cyro dos Anjos

"Ali pelo oitavo chope, chegamos à conclusão de que todos os problemas eram insolúveis. Florêncio propôs, então, o nono, argumentando que esse talvez trouxesse uma solução geral."
(Editora Abril.)

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Cotação do dia

Dou-me importância demais, eu sei. É um vício antigo, quase um defeito de nascença, como se eu pertencesse a uma família de aristocratas.

Belle époque

Na sua época áurea, os românticos tinham cartões em que se declaravam poetas. Com eles, as flores que compravam a crédito e os versos apaixonados, conquistavam muitas mulheres célebres, se bem que não todas as que diziam.

O prêmio

Para os escritores, especialmente os poetas, um bom prêmio, depois de um dia de trabalho, seria um prato de sopa e umas fatias de pão. Falando simbolicamente, é claro.

Manoel de Barros

Uma impressão que tenho é a de que Manoel de Barros rabiscava os poemas em tirinhas arrancadas do papel em que o pão vinha embrulhado e as colocava dentro de um açucareiro provavelmente vazio.

Circunstância

Nem todos os poetas de vanguarda tiveram a sorte de não ver o amadurecimento dos seus frutos.

Quilo certo

João Cabral não concordaria, mas a poesia parece feita sob medida para tipos amalucados como os poetas.

Circo

Prestigiei-me, por que não?
Permitiram-me opinar
E eu, sem pudor nem tardar,
Me empreguei como bufão.

Anamnese

O que escrevo diariamente poderia ter algum valor se fossem anotações destinadas ao estudo psicanalítico de uma personalidade ora afogada na autonegação, ora entregue a delírios de glória.
Quase me envergonho daquilo que tenho de racional. Felizmente é pouco. Devo, preciso ser, só emoção. Fui feito para berrar, gemer, me lastimar. Sou uma dessas criaturas nascidas para despertar culpa nas outras. Faço com que se sintam responsáveis por mim e por meu sofrimento, e tenham o ímpeto de me puxar para o colo. Nisso há talvez um tanto de premeditação, mas muito mais de intuição. Até dormindo induzo ao remorso

De gatos

Me agradaria escrever sobre gatos. Só sobre gatos. Sei que me abominariam: tantas crianças sofrendo no mundo, e eu indiferente? Pois bem, eu escreveria sobre gatos que sofrem. E há tantos no mundo. Saberemos nós quantos?

De Ruy Castro, sobre Betty Faria

"O lado general de Betty não pode ser minimizado: criada praticamente na caserna, ela derrotou o tabu da virgindade, de trabalhar no que gostava, casar sem se casar, posar nua, criar filho sozinha, jamais esconder a idade e, já madura, namorar rapazes trinta anos mais jovens. E nunca bateu continência para ninguém."
(De Ela é carioca, Companhia das Letras.)

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Ignorância seletiva

Sou tão desatualizado quanto a maioria das pessoas, mas escolho assuntos mais interessantes.

Mestre

Woody Allen é o melhor antologista de Nova York.

Soemos (para Silvia Galant Franços)

Como a folhagem de uma árvore, não nos neguemos a soar a cada toque da brisa. Não tenhamos a pretensão de ser juízes da beleza. Soemos sempre, sem ardis nem premeditações. Sejamos como deve ser um instrumento.

Preparativos

Gastemos nossas interjeições de ódio, repulsa, rancor. Livremo-nos do fogo que temos acumulado com zelo de agiota. Guardemos, para levá-las em nossa última viagem, só palavras que exprimam a beleza que talvez ali encontraremos.

Vantagens (para Celina Portocarrero e Marisa Lajolo)

Uma mente infantil eu não sei, mas um coração juvenil é uma bênção para um poeta, em qualquer idade.

Decepção

Desistiu de entender a gramática ao descobrir que, contra a lógica, os chamados vícios de linguagem não eram os palavrões.

Instrumento fiel

Que haja algo para ser escrito amanhã, que eu o escreva e não veja desdém em nenhuma das palavras, depois de fixar a última no texto.

Qualificação

Sofrer é um exercício pelo qual a alma deve passar continuamente, para poder ser útil ao poeta quando ele a chamar. Almas alegrinhas são indicadas só para aldeões e sanfoneiros.

Negócio (para Luciana Nobre)

Quando  morrermos, quem assumirá a gerência da fábrica de sonetos e responderá às manifestações de protesto?

Temeridade

Não acredito que alguém tenha tido coragem de dizer a Jorge Luis Borges que o melhor da festa é esperar por ela.

Num alfarrábio

Uma frase de Deus, segundo uma fonte não identificada: "Pode ser que eu me engane, mas..."

Mario Quintana

Não sei o que Bilac dizia quando conversava com as estrelas, mas posso imaginar pelo menos uma das frases que Mario Quintana cochichava para elas: "Que sorte vocês têm de estar no céu de Porto Alegre!"

Praticidade

Os concretistas costumavam manter, no local dos seus poemas, um plantão de vendas.

Grandeza (para Rose Marinho Prado)

Depois de ter um poema seu definido como colosso por um crítico, o concretista disse que estava preparando um mais monumental ainda, de três andares.

Conceito

Obscurantistas são os escritores que tapam o sol com a peneira.

Item

Eu já deveria ter aprendido que a persistência, mesmo que seja uma de seis décadas, não garante, por si só, a qualidade da poesia.

Profissão de fé

Minha energia, toda essa pouquíssima que ainda tenho, está concentrada em escrever. É um exagero dizer que vivo para isso, mas eu digo, com plena honestidade. Não significa que eu me considere um artista. Significa que mantenho essa aspiração, quase tão antiga quanto eu mesmo, e me orgulho dela, apesar de todos os risos que com essa paixão possa provocar.

Início de "Perturbação", de Thomas Bernhardt

"No dia 26 meu pai saiu às duas da madrugada para visitar em Salla um professor que encontrou moribundo e deixou já morto, voltando a sair em seguida para Hillberg, a fim de tratar ali de um menino que, na primavera, tinha caído numa gamela cheia de água fervendo e que agora, tendo recebido alta no hospital, estava há várias semanas em casa com os pais."
(Tradução de Hans Peter Welfer e José Laurenio de Melo, publicado pela Rocco.)

domingo, 3 de setembro de 2017

O início (para Alexandre Brandão)

Naquela noite, descobri que não havia tantas estrelas quantas diziam haver os românticos e que a lua, bem observada, tinha manchas, como os pulmões de um fumante condenado. Foi aí que começaram a me assediar as ideias de suicídio.

Permissão

Que ninguém se aproxime de mim, a não ser com intenções estritamente amorosas.

Dedicação plena

Está disponível para o amor todos os dias - dia sim dia sim.

Autoanálise

Ele se considera um lacaio que não merece a honra. Nunca recebeu uma moeda a mais do rei ou afago da rainha para não revelar certos segredos.

Avanço

Depois que assumiram a forma esférica como legítima alternativa, os concretistas passaram a escoar mais rapidamente a produção.

Metamorfose (para Alexandre Brandão)

Os poetas antigos só precisavam dar conta de poucas e pequenas coisas: flores, passarinhos, o simbolismo de um cisne num lago escuro ou de um violino soando à meia-noite numa casa onde jamais houve algum. Depois, decidiu-se que os novos tempos exigiam algo mais dos poetas. E eles se armaram de escudos contra essas tentações fáceis. Hoje são todos prósperos prosadores e usam expressões como carpintaria do texto.

Compreensão

Um dia alguém nos entenderá, talvez. E compreenderá por que há tanto tempo nos execramos.

Maturidade

A literatura é um sonho esdrúxulo que alguns adolescentes mantêm até o fim da vida.

Resolução

Estou velho demais para começar a aprender seja lá o que for. Preciso continuar fingindo que acredito em mim como poeta.

Gravidade (para Rose Marinho Prado)

Poemas concretos não caem do céu. Felizmente.

Prioridade

A primeira escolha dos poetas românticos não era viver pelo amor. Era morrer por ele.

Divisão de tarefas (para Silvana Guimarães)

Os poetas parnasianos entravam com o lago, o cisne e a lua. Os leitores, com o estoicismo.

Regulamento

Aos domingos, certos poetas deveriam, por norma escrita, abster-se de seu ofício, ainda que relutassem em cumpri-la. Não tanto para terem um descanso, mas para poupar os leitores.

Lógica

Se todos nós fôssemos mesmo poetas, o Brasil seria a maior poetaria do mundo.

De Ruy Castro, sobre Ivan Lessa

"Nasceu em São Paulo, mas saiu de lá aos sete anos, com péssima impressão de um sujeito de óculos chamado Mário de Andrade, que se sentava a sua mesa na lanchonete e ficava de olho no seu frapê de coco."
(De Ela é carioca, Companhia das Letras.)

sábado, 2 de setembro de 2017

Quanto valho

Venho desfazendo de mim desde a adolescência. Hoje, rascunhando um balanço que imagino ser o definitivo, descobri que não fui justo. Deveria ter desfeito um pouco mais. Deveria ter começado antes.

Arrependimento

Se eu houvesse sido um pouco menos ridículo... As pessoas têm cada vez melhor memória. O que dizem de mim? O que dirão quando eu estiver morto?

Como se fosse

Eu gostaria de ter outro rosto, que não fosse tão incompatível com a ideia que se costuma ter dos poetas, se eu ousasse me apresentar como um.

Desde há muito

Tenho pena de mim. É um sentimento antigo, que trago de minha infância desventurada. Com o tempo eu o venho aprimorando, em meu benefício.

Physique du rôle

Vi na infância um morto que parecia um general russo, com seu bigodão branco. Na verdade ele era fiscal da prefeitura. Chamava-se Ivan. Do sobrenome não me lembro. Alguma coisa como Ivanov ou Romanov. Ou Drewnick.

As boas frases

As boas frases são mais comuns do que se pensa. Algumas caem diariamente nos ônibus, como moedinhas, e às vezes não há ninguém que julgue valer a pena abaixar-se, para recolhê-las. Uma, dita hoje num celular, no Vila Morais: "Pelo andar da carruagem eu chego amanhã, se não morrer nenhum cavalo."

Ah, sim

O melhor caminho é quase sempre aquele que devíamos ter tomado quando escolhemos outro, dez ou vinte anos atrás.

Botânico

Apesar do que dizem os céticos, ao amor perfeito  talvez só falte um hífen.

14h30

Talvez não desagradasse ao morto ouvir as pragas que o carro fúnebre e os que o seguem começam a provocar, a dez quilômetros do cemitério.

Mario Quintana (para Silvia Galant François)

Mario Quintana tinha dois jeitos principais de ser: um simples, muito simples; o outro, mais simples ainda.

Travessura terceiretária

Nada me dá maior prazer do que fechar os olhos e brincar de morrer.

Terminologia

Um psicanalista pode não resolver todos os nossos problemas, mas sempre dá um nome mais imponente a cada um deles.

Conduta

Um adjetivo honrado não deve andar na companhia de qualquer adjetivo, principalmente daqueles que têm hábitos noturnos.

Cotação do dia

De tanto ver nulidades triunfando, achamos que podemos também.

Bar errado

Um bêbado desconhecido entrou no velório, tropeçando. Empurrado e censurado por todos, equilibrou-se por um momento diante do morto: "E você? Você não diz nada, cidadão?"

Inconveniente

Uma pena: morto célebre não dá autógrafo.

Sobre odores (para Celina Portocarrero, Marisa Lajolo e Silvana Guimarães)

Pior poeta não é aquele cujas axilas exalam odor caprino. É aquele cujas axilas cheiram como rosas.

Sem queixa

Uma das dívidas deixadas pelo morto será paga até com satisfação pela família: o terno escuro com o qual foi enterrado, adquirido uma semana antes, sem que se suspeitasse como viria a ser útil para desmentir uma tradição de defuntos desmazelados.

Início de "Malone morre", de Samuel Beckett

"Logo enfim vou estar bem morto apesar de tudo. Talvez mês que vem. Vai ser abril ou maio. O ano ainda é uma criança, mil sinaizinhos me dizem. Quem sabe esteja errado, quem sabe consigo chegar até o dia da festa de São João Batista ou até mesmo o quatorze de julho, festa da liberdade. Qual o quê, sou bem capaz de durar até a Transfiguração, me conheço bem, ou até a Assunção."
(Tradução de Paulo Leminski, Editora Brasiliense.)

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Do camelô, sobre a morte

Morrer não requer prática nem habilidade.

Opinião de estilista

Não há defunto que fique chique no verão.

Aviso

O humorista: só aceito morrer se for num 31 de fevereiro.

Prevenir

Enquanto é tempo, paremos de reparar na palidez dos defuntos, na sua barriga, na sua gravata. Que mania temos de lhes dar nota. Um dia seremos nós a atração.

Show

O defunto estava num dia feliz. Uma surpresa para parentes e amigos. Um irmão metido a poeta comentou: que carisma.

Falta de educação

Tudo se arranja para eles, aluga-se o local, põem-se flores, e quem diz que já viu um defunto agradecido?

Segurança pública (para Silvana Guimarães)

Mortos não escrevem trovas
Mas pelo sim pelo não
Tomemos a precaução
De serem fundas as covas.

Notinha gramatical

Paixão desmedida sempre me pareceu um pleonasmo.

Tradição

Das famílias reais costumam provir os defuntos com maior sucesso de público.

Mario Quintana (para Silvia Galant François)

Que outro poeta, além de Mario Quintana, você acha que ficaria bem com um algodão-doce na mão?

Do que estávamos falando

Se você teve infância, deve lembrar-se do que é amor.

Quarenta graus

O amor é uma dessas erupções que pipocam nos adolescentes.

Impressão

O defunto parece inquieto, como se esperasse o benefício da dúvida.

cem anos de paixão - raul drewnick

Tanto amor, tanto, desvairado, tresloucado, único.

Hoje no portal do Estadão

Faço variações em torno da palavra êxtase.
http://emais.estadao.com.br/blogs/escreviver/em-torno-da-palavra-extase/

Arranha-céus

Alguns poemas concretos são mais arrogantes, às vezes, que o empinado nariz dos seus autores.

Amor, s.m.

Amor é uma palavra que teríamos pronunciado menos, se conhecêssemos a indignidade de nossos lábios.

Réplicas

Depois dos vanguardistas
vêm os detratores
os oportunistas
e os colecionadores.

De Ruy Castro, sobre Paulo Francis

"Quando Francis era bom, era ótimo. Mas quando era mau, era melhor ainda."
(De Ela é carioca, Companhia das Letras.)

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Apocrifia

Ele é um lacaio de costas e ombros dilacerados, em cujas cicatrizes ninguém além dele identifica marcas de amor.

Notícia do dia

Continuo vivo. Abro a janela. Resta-me algum ânimo. Corações piedosos, tapem os ouvidos da poesia.

O que você quer (para Paula Giannini e Veronica Stigger)

É isso que você quer? Isso mesmo? Isso que esses jovens dizem querer também? Olhe para você. Olhe para eles. Que incompetente deus concederia a um homem trôpego, de cujos lábios escorre essa baba bovina, o dom da poesia?

Cântico

Há um segredo
que os vivos ainda não
mas os mortos conhecerão.

Tarefa

Escrevamos alguma coisa, qualquer coisa. Por quê? Para quê? Fizemos essa pergunta ontem. Fizemos essa pergunta hoje. Escrevamos alguma coisa, qualquer coisa. Perguntemos novamente amanhã.

Incômodos (para Rose Marinho Prado)

Ainda não se definiu qual é o som mais irritante: se a tosse de um soneto parnasiano, se o guincho das dobradiças de um poema concreto.

Estilo

A sorte de Deus quando ciou o mundo foi não haver ainda, na época, um crítico de arte.

Método (para Aden Leonardo, Arlene Colucci e Tuca Kors)

Algumas palavras melhoram se, antes de passadas ao texto, recebem um afago: seda, cetim, brisa, gato.

Como ontem (para Alfredo Aquino)

Tenho sentido a tentação de escrever como quando estava com oito anos. Gastei a vida procurando palavras, assuntos, modos de dizer, e nunca achei melhor frase para definir o sol do que a primeira: o sol é bonito.

Meio ambiente (para Silvana Guimarães)